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Acho que nada a mais tenho a dizer, fico assim eternizado.
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As coisas caminham aqui na fazenda, sem muitas novidades por enquanto, pois é, Charlie.
Tem dias que eu nem consigo saber o que aconteceu de verdade. O que é invenção da minha cabeça.
Mas as coisas que eu consigo ter certeza são sempre boas, já que elas me fazem bem. Eu sei que a vida é assim mesmo, tem horas que começa e horas que termina. Bezerros nascendo e gente morrendo. Gente nascendo e bezerros morrendo. E eu aqui, passando por tudo isso.
O Charlie me diz que é preciso ser sábio e aproveitar o tempo das coisas e é só isso o que eu faço. Se dependesse de mim, a vida seria só aproveitar, mas como não depende, tudo continua assim, do jeito que é.
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O que aconteceu durante todo esse tempo que estive fora? Pra mim, parece que nada. Bem diz o Charlie, quando fala que o tempo não passa pra algumas coisas.
Hoje, sinto como se novamente tivesse algo a dizer, só o tempo dirá.
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Como disse, meus pais foram viajar, ficamos somente eu e o Manuel em casa, porque a Carol quis ir com eles. Não é como se o meu bezerro não existisse mais, é como se agora existissem outras coisas. Algumas delas eu nem sei o que é.
Lindos olhos ela tem, canta perfeitamente.
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É como se agora, eu precisasse provar ao mundo que o meu bezerro existe, é como se ninguém acreditasse mais em mim. De qualquer jeito, não gosto de me fazer de vítima. É verdade que o bezerro pode não existir, eu não sou louco de teimar uma coisa incisivamente pelo resto da minha vida, tenho outras coisas pra fazer, mas ainda assim, eu acredito plenamente que ele existe, só ainda não encontrei, mas eu escuto e enxergo ele várias vezes.
Talvez eu não precise provar nada, deixo isso pra quem não tem o que dizer.
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Meus pais querem fazer uma viagem. Outro dia, eu briguei com eles, peguei a câmera e corri atrás do meu bezerro cor de caramelo, apesar da boa vontade dos meus irmãos, eu não consegui encontrá-lo, fiquei com medo dele ter ido embora pra sempre. Era como se num momento ele estivesse lá, e no outro tudo tivesse desaparecido, igual o Charlie faz de vez em quando. Eu evito de falar do bezerro perto do meu pai, ele fica bravo.
Meu quarto fica cada vez mais bagunçado, eu não tenho paciência de arrumá-lo e agora que minha mãe vai viajar, aí é que ninguém arruma mesmo. Esse é meu medo de ficar sozinho outra vez, porque eu não quero ir pro lugar que eles querem ir. Eu fico feliz aqui em casa, mais feliz do que quando eu ficava sozinho. Meu quintal me traz felicidade e as galinhas correm desesperadas de mim quando vou roubar-lhes os ovos.
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Passava os dias brincando, ainda não encontrei meu bezerro cor de caramelo. Começo a ficar cansado, nem o Charlie me dá respostas. Preciso sair pra procurá-lo, meus pais dizem que ele não existe. Vou provar o contrário.
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Acordei hoje com minha mãe pegando as coisas pelo quarto. A enfermeira logo veio abriu a janela e aquela luz fez doer a minha vista. Olhei pra cama do lado e Charlie não estava mais lá, estava com sono, não consegui perguntar para onde tinham levado ele, e também, eu estava vindo pra casa.
Todo mundo me viu saindo, pareciam todos felizes, eu também fiquei feliz. A menina Mari veio me abraçar da forma doce de sempre, ela é pequena ainda, não sei o que faz na clínica. Ela me abraçou e em seguida ficou encarando a parede e dando tchau, acho que eu era o único que brincava com ela.
Meu pai me esperava no carro, eu entrei e viemos pra casa. Manuel e Carol passaram o dia comigo no quarto, mas conversamos pouco, tudo ainda é muito estranho pra mim.
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Não sei se adianta não me contarem, hoje esperei o dia todo pra alguém vir me buscar. Bem disse o Charlie, ele acha que eu devia me despreocupar, não é ele que vai voltar pra casa.
Uma amiga minha perguntou porque eu estava mais equilibrado, mal sabe o quanto eu anda comendo as unhas aqui no quarto, pulando de um lado pro outro quando escuto uma música legal. Mas isso eu ainda disfarço. Não vai ser amanhã. Hoje eu vi tucanos voando no céu, eles faziam barulho.
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Hoje fiquei bravo. Por alguma razão, as pessoas não permitem que eu fique bravo, elas querem que eu seja sempre engraçado e divertido. Não sou. Fiquei com medo, pois acho que ainda essa semana eu volto pra casa, talvez amanhã. Não me falaram ainda pra eu não ficar ansioso, acho que minha mãe que vem me buscar, acho que sozinha.
Quando eu me aborreço eu fico bravo, acho que todo mundo é assim, não sou louco só por isso.
